Com uma longa carreira dentro da grande área. Assim pode ser definida a passagem do jogador Gilmar. Enquanto atleta, o sobrenome era pouco divulgado, mas a liderança e as conquistas já apontavam que a rotina permaneceria no futebol, mesmo após a aposentadoria.

De origem humilde, seus pais deixaram Paraí, município gaúcho distante cerca de 250 km de Porto Alegre, para buscar oportunidades na vizinha Santa Catarina. Desta forma, o mais novo de sete irmãos nasceu em Quilombo, região Oeste do Estado e, logo com dois anos, migrou com a família para Santa Isabel do Oeste, no Paraná. Mais tarde, o retorno para a terra dos genitores.

O caçula cresceu na lida campeira. Entre a agricultura e outras funções, ajudava o pai, seu Artenilo, durante a adolescência.  Até os 18 anos, seu principal afazer era numa pedreira da cidade, onde literalmente cortava pedras, pois o basalto era, e é ainda, a principal fonte econômica do local. O sonho de algo maior jamais abandonou o jovem. Porém, depois de testes sem êxito no Internacional e no Juventude, começou a jogar no Pratense, já tarde para os padrões atuais. A equipe amadora de Nova Prata recebeu um goleiro de boa envergadura, mas sem noção técnica até então. E isto para muitos seria um empecilho. Não para Sarrafo, apelido dado pelos mais próximos, por conta das brincadeiras no voleibol. Pouco mais de um ano passou e a oportunidade se deu ao transferir-se para o Caxias. Na equipe do Centenário viveu praticamente onze anos, desde a chegada em 1989 até a saída depois da maior conquista do clube.

“Cheguei a escutar que era para eu voltar a cortar pedras, porque não daria para o futebol. Isso me marcou bastante, mas nunca desisti. Sempre fui muito determinado e equilibrado nas críticas, além de buscar o crescimento. Com trabalho e foco aprendi a ser goleiro tarde para os padrões, mas no meu tempo, onde pude conquistar títulos e ser feliz”, afirma o maior goleiro da história Grená.

Após diversas etapas com a camiseta número 1, foi na decisão do Campeonato Gaúcho de 2000 que Gilmar eternizou seu nome. Com uma equipe treinada pelo até então pouco conhecido Adenor Bacchi, o Tite, a vibração do arqueiro era uma das vozes fortes daquele grupo. Salário atrasado, dificuldades e um time milionário pela frente numa decisão estadual. Nada disso foram suficientes para frear a vontade e a garra da equipe. Na partida de ida, goleada por 3 a 0, com boa atuação do guarda-meta. Mas no jogo de volta, o enfrentamento pessoal contra Ronaldinho Gaúcho virou vinheta de televisão. Um pênalti contra seu time e na bola o então camiseta 10 do Grêmio.

“Eu sempre estudei os cobradores e sabia como o Ronaldinho batia na bola. Na hora da cobrança mantive minha tranquilidade e caí para o lado certo. Seguramos o 0 x 0 no Estádio Olímpico lotado e calamos muita gente que não acreditava em nós. Mas o mais importante é que a gente acreditou e isso bastava”, recorda.

Após o título, a transferência para Portugal, onde morou na Ilha da Madeira, para defender o Marítimo. No Velho Continente teve a chance de disputar uma das maiores competições de clubes, defendendo o time na extinta Taça da UEFA, hoje Liga Europa. A experiência vivenciada serviu para determinar os passos seguintes e aumentou sua bagagem cultural pelo conhecimento adquirido. Ao retornar para o Brasil, participou da brilhante campanha do Goiás em 2003, quando a equipe ficou 18 partidas invictas, saindo da lanterna do Brasileirão e encerrando a competição classificada para a Copa Sul-Americana.

“Aquele time também foi marcante. Como o Caxias e o Avaí. São grupos que não esqueço. O treinador era o Cuca e diversos jogadores saíram dali porque se destacaram na competição, foram para clubes de ponta, valorizaram. Imagina, o time era lanterna na virada do turno e terminou em nono. Na época eram 24 times.  Foi um trabalho fantástico. Grafitte, que foi da Seleção, Dimba, Araújo, o Danilo, que depois foi campeão mundial pelo São Paulo, enfim, uma história bonita”, considera.

O Avaí surgiu no ano seguinte e com a ida para Florianópolis, veio o objetivo de um dia fixar residência com a família na bela capital catarinense, o que aconteceu em 2014. Do Leão da Ressacada, onde atuou duas temporadas, guarda a amizade com o ex-presidente e um dos incansáveis nomes a projetar o clube, João Nílson Zunino, que perdura até hoje.

Antes de retornar para o Rio Grande do Sul, atuou pelo Santa Cruz. Costuma elogiar a força da torcida Coral e a energia recifense em cada jogo no Mundão do Arruda. De volta ao seu ‘território’, em 2007, outro jogo marcante, quando o poderoso Internacional, campeão mundial poucos meses antes, foi eliminado no Antônio David Farina com o time titular, em atuação de gala de Gilmar. Considerado o melhor goleiro do Gauchão, ao término da competição pelo Veranópolis, encerrou a carreira, que contou com dez gols marcados em cobranças de pênaltis. Assim, a troca das luvas pela prancheta, permitiu finalmente que seu sobrenome se juntasse ao nome, dentro da esfera desportiva.

O Treinador

Foi em terras lusitanas que passou a enxergar a possibilidade de uma transição e começou a buscar aprendizado para que quando chegasse a hora de encerrar a carreira como goleiro, não se afastasse do futebol. Na época, teve a oportunidade de conhecer o trabalho de José Mourinho, que iniciava sua trajetória no União de Leiria. Livros e artigos já o acompanhavam e ao despedir-se da meta do Veranópolis, na cidade onde já fixara morada, aceitou na temporada seguinte assumir o comando técnico do Pentacolor da Serra. Sempre mantendo o pensamento de um projeto para desenvolver, com planejamento e tempo de trabalho, assim como geriu a trajetória de jogador, busca não ter apenas ‘aparições’, mas sim fazer a diferença onde estiver.

Com um time vibrante, de posse de bola e marcação forte, além da transição rápida e ataque positivo, conquistou o inédito título de Campeão do Interior com o VEC.  E então, Dal Pozzo virou marca registrada.

A liderança de um capitão, com a vibração na casamata, fez com que o treinador passasse a galgar degraus. No segundo semestre daquela temporada disputou a Copa FGF, assumindo o Pelotas no 2º turno da competição e sagrando-se campeão. Ao todo, três passagens no Veranópolis, duas no Pelotas e uma pelo Novo Hamburgo. Sem deixar o conhecimento de lado, fez estágio no Corinthians com o amigo Adenor Bacchi, o Tite, o qual seguidamente conversa acerca das novidades táticas no futebol mundial.

Em 2012, recebeu convite em setembro para assumir a Chapecoense, time que estava numa situação periclitante na Série C, próximo da Zona do Rebaixamento. Ao seu modo, o comandante gravou sua história como o maior técnico de todos os tempos no clube catarinense, colocando o clube da Terceira Divisão para a elite do futebol nacional. Seus trabalhos táticos no dia a dia, a demanda de treinamentos rígidos para a bola parada e uma solidez defensiva, deram o respaldo necessário para que seu grupo, o qual classificou como família em 2013, atingisse a façanha do vice-campeonato da Segundona, atrás apenas do grande Palmeiras. E a campanha permitiu ter o artilheiro da Série B, além de ser o time que menos perdeu ao longo do ano. No clube alviverde ainda conquistou a Taça SC em 2014, garantindo vaga para a Copa do Brasil de 2015, assim como já fizera no ano anterior, quando foi vice-campeão catarinense.  Ao recuperar o orgulho de uma comunidade que sofria com seu time, fez 98 partidas, com um aproveitamento na casa dos 60%.

Competitividade e equilíbrio fazem parte do seu vocabulário diário. O assunto futebol permeia sua vida, mesmo dentro de casa com a esposa Cláudia e as filhas Daniela e Letícia. Mas o filho de dona Itelvina, a qual sempre se emociona ao mencionar que era uma grande torcedora, mantém um ensinamento da matriarca. Antes de pedir, agradecer, para depois comemorar. Sempre que encerra uma partida, independente do resultado, caminha a passos largos até o vestiário, para fazer a sua oração.

Ficha técnica
Gilmar Dal Pozzo
Data de nascimento: 01/09/1969
Local: Quilombo/SC
Cargo: Treinador
Clube atual: Juventude/RS

Clubes
– Veranópolis/RS (2008)
– Pelotas/RS (2008)
– Veranópolis/RS (2009-2010)
– Novo Hamburgo/RS (2010)
– Pelotas/RS (2010-2011)
– Veranópolis/RS (2011-2012)
– Chapecoense/SC (2012-2014)
– Criciúma/SC (2014)
– ABC/RN (2015)
– Náutico/PE (2015/2016)
– Paysandu/PA (2016)
– Ceará/CE (2017)

Títulos
– Taça SC (2014)
– Copa FGF – Taça Lupi Martins (2008)

Conquistas pessoais
– Primeiro treinador no país a ascender duas divisões seguidas com a mesma equipe (2012-2013)
– Acesso para a Série A do Campeonato Brasileiro (2013)
– Top da Bola/SC – Troféu de Prata (2013)
– Vice-campeão do Campeonato Catarinense (2013)
– Acesso para a Série B do Campeonato Brasileiro (2012)
– Campeão do Interior – Gauchão (2012)

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Gilmar Dal Pozzo

Foto: Fernando Martinez/Aguante

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